"Don't go away, you fucking asshole, don't go away."

domingo, 25 de abril de 2010

Há um candeeiro, um quadro e um sofá.
A decoração não é complicada mas a casa em si é-o e muito, demasiado até.
O candeeiro é azul e de tão selectivo que nem todas as lâmpadas funcionam devidamente nele.
O quadro, nunca mais me esquecerei, tem uma espiral unida por trezentos e setenta e oito pontos. Conteio-os num dia em que simplesmente não queria pensar que estava ali porque estava sozinha. Contei-os hoje eram seis horas da manhã.
O sofá é o meu melhor amigo, nele choro, rio, deito-me, sento-me, faça o que quero fazer e ele nunca me condena.
Estou aqui sozinha há quase um ano.
Numa manhã saí de casa em direcção ao meu mundo de todos os dias. De repente as minhas pernas mudaram de rumo e eu segui-as. Quando dei por mim estava na estação de comboios. Apanhei o primeiro, não digo para onde porque até hoje ninguém sabe nem pode saber onde eu estou, cheguei aqui.
Escrevo esta carta só para saberes como é o sítio onde eu devia estar e se calhar até estou. O resto é demasiado real para interessar.
Vou voltar.
Não tenho dinheiro e trabalhar é uma das quase todas as coisas no mundo que o ser humano não pode fazer sozinho.
A todos vocês que ficaram para trás, se ainda se lembrarem de mim, não fiquem preocupados. Eu sou cobarde mas eu vou voltar. Se ainda tiverem desse lado fazemos uma festa e tudo voltará a ser como antes.
A carta não tem remetente porque fiz questão de me esquecer do meu nome. Não tem destinatário porque vou fazê-la voar.
Tu que estás a ler esta carta, não sabes quem eu sou. Mas é só mesmo para dizer que estou a pensar seriamente voltar para os teus braços.
Espera por mim.
Se por acaso a recebeste porque estavas apenas a passar na rua podes subir. Era de ti que estava à espera. Preciso de uma pessoa.
É o terceiro direito.


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